Emicida Racional Vol. 2 – O Retorno às Origens

Análise: Emicida Racional Vol. 2 – O Retorno às Origens em Meio ao Luto e à Glória
Emicida em destaque na MTV Brasil.
Emicida retorna ao espírito combativo e visceral em seu novo projeto.

Análise do último álbum: O Emicida de 2010... morte e homenagem

Quando foi anunciado Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores, a pergunta que pairava era: qual versão do rapper veríamos? O artista conciliador de AmarElo ou o MC combativo das mixtapes? A resposta entregue em 2025 é um trabalho denso que recupera o espírito das batalhas de rima ao mesmo tempo em que navega pelo luto profundo.

Capa do álbum Emicida Racional Vol. 2.
Capa do álbum.

O Retorno ao Começo: O "Emicida de 2010"

Para quem conheceu o artista recentemente, este disco pode soar difícil. Emicida decidiu voltar às origens, invocando o MC da Zona Norte que rimava em qualquer lugar. O álbum funciona como uma antítese ao sucesso pop; é uma obra com estrutura irregular, quase sem refrões e repleta de áudios longos, feita para ser investigada com o fervor de um pesquisador.

Destaques Track por Track

  • 1. Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior): Portal emocional do disco com áudios de Dona Jacira sobre o cotidiano e reflexões profundas. Encerra com um registro cru do luto de Emicida.
  • 2. Mesmas Cores & Mesmos Valores: Manifesto central que espelha o legado dos Racionais com o presente do rapper, reafirmando a ética da rua e a ascensão social.
  • 3. A mema praça: Reencontro histórico com Rashid e Projota. Denuncia a violência policial na Virada Cultural de 2007 e celebra a vitória daquela geração.
  • 4. Quanto vale o show memo?: Linha do tempo biográfica que conecta traumas pessoais, como a perda do pai, a marcos da história do Brasil e do rap.
  • 5. Us memo preto zica: Reinterpretação jazzística com Amaro Freitas. Aborda o orgulho racial e a "lei da selva" urbana com instrumentação sofisticada.
  • 6. Finado Neguim memo?: Exercício de puro domínio técnico e rimas raras. Uma morte simbólica do antigo "eu" das batalhas para uma nova transformação lírica.
  • 7. Compreender tudo, é perdoar tudo: Pausa reflexiva e pacifista focada na cura e na empatia em um mundo polarizado.
  • 8. O que nóiz faz com essa dor?: Interlúdio instrumental dedicado ao processamento do luto e das dores apresentadas na obra.
  • 9. A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma: Registro atmosférico minimalista em São Paulo, explorando a dualidade entre vida e morte.
  • 10. (outro) A próxima mensagem que você precisa...: Encerramento instrumental que fecha o ciclo do álbum, sugerindo continuidade e reflexão.

A Espinha Dorsal: O Luto por Dona Jacira

Dona Jacira não é apenas homenageada; ela se faz presente fisicamente através de sua voz falando sobre jardinagem, culinária e conselhos. O álbum valida Jacira como uma intelectual e artista — autora de biografia e detentora de tecnologias ancestrais. Sua morte, em julho de 2025, foi o catalisador para este tom introspectivo e denso.

Diálogo com os Racionais MC's

O título é uma reverência ao disco Cores & Valores (2014). Emicida descreveu o momento de mostrar o disco para Mano Brown e os outros membros como a sensação de "prestar um vestibular". O resultado foi validado pelos ídolos, simbolizando o entrelaçamento definitivo entre o mestre e o aprendiz.

Veredito

Emicida Racional Vol. 2 não é um disco para tocar no rádio. É um "filho das madrugadas", ilustrado por uma capa que mostra um estúdio bagunçado e uma poltrona de terapia. Emicida encarou o menino que foi em 2010 para provar que teria orgulho da jornada trilhada, transformando dor em arte monumental.

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